07/04/2021

Mais do que colaboradores, pessoas: o valor da gestão humanizada e atenta à saúde mental

Priscila Belinschi

Imagine a seguinte situação: uma empresa com milhares de funcionários, em que um gerente ou supervisor coordena dezenas de colaboradores com os quais atua e interage diariamente. Em um determinado momento, a rotina intensa de trabalho, associada a dificuldades econômicas e problemas no relacionamento afetivo levam um destes trabalhadores a um quadro de ansiedade que se revela, aos poucos. 

Os colegas notam pequenas mudanças de comportamento: impaciência para lidar com questões cotidianas, reações ríspidas que beiram o agressivo quando surgem problemas imprevistos, distração ao realizar as atividades. O gestor, no entanto, ainda que tenha boas intenções e conheça pessoalmente cada um dos seus subordinados, está focado nas demandas rotineiras do seu setor e não consegue dar atenção individualizada e diária. Portanto, não percebe o problema até que o quadro de ansiedade evolui e culmina em uma crise que faz com que o colaborador precise ser afastado para realizar um tratamento.

Situações como esta acontecem todos os dias, muitas vezes gestadas dentro do próprio ambiente de trabalho, em outras, resultado de fatores diversos não relacionados diretamente à profissão. E, no entanto, impactam diretamente sobre os colegas, desestabilizando o espaço de trabalho e diminuindo os rendimentos da empresa por meio da queda de produtividade. 

Na velocidade dos acontecimentos cotidianos atuais, é preciso ter cuidado. É essencial lembrar que cada colaborador é um indivíduo, com suas próprias questões pessoais, emocionais, afetivas, identitárias. Que existem males que não é possível ver sem olhar atentamente, mas estão ali, e prejudicam as pessoas quando vestem o uniforme. 

Uma gestão humanizada demanda esse olhar atento sobre a saúde mental no ambiente de trabalho. Mas, como? É nestas horas que a horizontalidade da gestão se torna ainda mais importante. Transformar as equipes de trabalho em uma rede de cuidado é essencial. Não se trata de criar uma espécie de “rádio peão”, como popularmente se fala, em que cada um fica de olho na vida do outro. 

Mas é quase isso: é preciso sim olhar o outro, mas munido das ferramentas para identificar os sintomas dos distúrbios da saúde mental. O olhar coletivo é essencial para construir um ambiente de trabalho mais saudável e equilibrado. 

5 passos para cuidar da saúde mental no espaço de trabalho

Um espaço corporativo preocupado com a saúde dos colaboradores não é apenas aquele que observa as diretrizes de ergonomia ou disponibiliza os Equipamentos de Proteção Individual recomendados pelos órgãos fiscalizadores. Muitas medidas neste sentido estão nas atitudes, mais do que nas políticas de segurança.

Trabalhos recentes na área sugerem que os empregadores que promovem ações como maior controle das tarefas, reestruturação de atividades e diminuição da demanda podem influenciar positivamente a saúde mental, reduzindo o estresse, a ansiedade e a depressão e aumentando a autoestima, a satisfação no trabalho e, com isso, melhorando a produtividade.

Algumas medidas podem trazer resultados em curto prazo neste sentido, entre as quais as cinco seguintes são consenso entre os especialistas e pesquisadores do tema:

Promover o equilíbrio – é fundamental que a empresa não exija do funcionário a dedicação integral ao trabalho e estimule o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Incentivar os funcionários a adotarem hobbies e práticas saudáveis, promover a participação em corridas de rua, oferecer convênio com companhias de dança e teatro, bem como práticas de yoga, pilates e academias, são alguns caminhos práticos neste sentido. 

Discutir saúde mental no ambiente de trabalho – falar sobre o tema constantemente, tornando habitual que se discuta cuidados com o emocional, o psicológico e o equilíbrio mental no dia a dia da companhia. Estar atento aos pequenos sinais de ansiedade, depressão e outras patologias relacionadas à saúde mental é importante, mas nem sempre é possível que um gestor acompanhe individualmente cada colaborador. Por isso, trazer o tema para a pauta contribui para um diálogo também entre os colaboradores. 

Reduzir o estigma – tornar o tema uma constante na rotina de trabalho é essencial também para desestigmatizar o assunto. Historicamente, patologias mentais foram estereotipadas de diferentes maneiras, de forma que precisar de ajuda psicológica por muitas décadas foi visto com maus olhos pela sociedade. Isso não precisa mais ser assim, e sua empresa pode ajudar. Ajude seus colaboradores a saber que está tudo bem não estar bem, que vai passar, e, acima de tudo, que está tudo bem precisar de ajuda para lidar com questões pessoais. 

Fornecer treinamentos internos sobre saúde mental – conhecimento é a chave de tudo, e no que diz respeito à saúde mental, não é diferente. Os diferentes tipos de distúrbios relacionados à mente se apresentam de maneiras específicas, com sintomas distintos de acordo com a personalidade e o contexto, e nem todo mundo está preparado para identificá-los. Oferecer aos funcionários o ferramental para reconhecer que algo está acontecendo consigo mesmo ou com os colegas pode salvar vidas e trazer retorno em qualidade de vida, bem como economicamente. 

Incentivar a busca de ajuda – os colaboradores precisam saber que existem pessoas preparadas para ajudá-los a sair de uma fase difícil e encontrar caminhos para seguir em frente, superando quadros de ansiedade, distúrbios comportamentais e depressão.

Texto publicado originalmente no site da Proposito/Transearch

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